Roger Lerina: “Minha Expectativa é Surpreender o Leitor”


Bate-papo com um dos colunistas mais importantes do país. Editor da coluna Contracapa no jornal Zero Hora, Roger Lerina aborda temas relevantes sobre jornalismo e entretenimento.

Roger Lerina: “Minha expectativa é surpreender o leitor”Jornalista formado pela UFRGS e natural de Porto Alegre, Roger é um típico comunicador multiplataforma. Além de editor da coluna Contracapa do jornal Zero Hora, é critico de cinema e apresentador do Programa do Roger, exibido de segunda à sexta na TVCOM.

Convidamos Lerina para participar de um bate papo sobre jornalismo, arte e cultura. Entre os pontos altos da conversa estão a defesa do comunicador em prol da qualidade dos temas e da abordagem do entretenimento na mídia e o desafio que a interatividade e as novas plataformas propõem para comunicadores, sem que abram mão das características individuais de cada meio. Além de deixar uma dica essencial para os estudantes de jornalismo que pretendem trabalhar com arte e entretenimento. Confira abaixo a entrevista completa com Roger Lerina:

#1. Pensando em sua trajetória pessoal e profissional: Como você começou a trabalhar com o jornalismo e com entretenimento? O que mais te fascina na profissão?

“Comecei a trabalhar no Segundo Caderno do jornal Zero Hora em fevereiro de 1999, primeiramente redigindo notas para a página de televisão e ocasionais matérias de cinema e música. Lá por abril daquele ano, assumi a coluna Contracapa, cujo perfil permanece basicamente o mesmo até hoje: uma mistura de notícias em primeira mão sobre arte e cultura – locais, nacionais e internacionais -, que reflete meu ecletismo de interesses nessas áreas.

A ideia é comunicar-me com o leitor como em uma reunião de amigos na mesa do bar: o papo sobre o novo filme do Woody Allen pode emendar com o comentário a respeito de um concerto de música erudita ou do show da banda Foo Fighters, o lançamento de uma HQ divide a atenção com uma montagem de Shakespeare.

Busco escrever em uma linguagem coloquial e mesmo divertida, a despeito da “seriedade” do tema, acrescentando ainda eventualmente fotos de ensaios sensuais com atrizes ou modelos – porque é assim que as conversas fluem na verdade, pulando de um assunto para outro, sem muita hierarquia. E é justamente isso o que mais me estimula no meu trabalho: a oportunidade de dividir com outras pessoas meu entusiasmo por cinema, música, teatro, literatura, artes visuais – minha expectativa sempre é a de conseguir surpreender o leitor e estimular o interesse dele por coisas que talvez antes ele não desse muita bola.”

#2. Hoje, como você vê o cenário para o jornalismo e para o entretenimento no Brasil? Qual o papel do jornalista que cobre essa editoria?

“Já é senso comum a noção de que o jornalismo passa por um momento de crise – para mim, mais no sentido etimológico da palavra, que remete ao conceito de mudança, do que no entendimento catastrófico do termo. Ainda que não me alinhe entre os apocalípticos que enxergam o fim da imprensa ali adiante, não deixo de me preocupar com algumas tendências que têm se afirmado nesses tempos de incerteza quanto ao futuro.

Algo que tem me contrariado na minha área é o excesso de atenção aos factoides e às fofocas do mundo das celebridades. Na briga pela audiência a qualquer custo nas novas mídias, especialmente na internet, jornais, televisões e sites dedicam cada vez mais espaço e tempo a futilidades e mundanidades que miram na curiosidade difusa do público e estimulam tão-somente uma visualização superficial e acrítica de assuntos que, no final das contas, não merecem mesmo muito mais do que isso.

É com temor e tristeza que observo o terreno da arte e da cultura na grande imprensa minguar em prol de uma cobertura de entretenimento cada vez mais descartável, desinformada e vulgar. Acho que é dever de todo jornalista da turva editoria de cultura/lazer/entretenimento fincar pé na defesa da qualidade dos temas e das abordagens de seu trabalho, a fim de garantir ao leitor/espectador/internauta o acesso a informações e análises que o estimulem à reflexão e respeitem sua inteligência.”

#3. Com a grande variedade de meios e plataformas que temos hoje, para você, qual a diferença e o grande desafio em se fazer jornalismo na Tv, no Jornal e na Internet?

“Penso que a principal dificuldade hoje é entender uma obviedade: TV, jornal, rádio e internet são mídias distintas, cada uma com sua linguagem própria. É claro que todos os profissionais de comunicação estão cientes em tese dessas diferenças, mas a já citada instabilidade do setor, especialmente econômico-financeira, tem levado a uma indefinição também conceitual: jornais competindo pateticamente com o imediatismo da internet, televisões em pânico diante do escoamento de público e receitas.

O desafio é adaptar-se ao inescapável novo cenário que a interatividade internética vem desenhando sem abrir mão das especificidades de cada meio. Será que o jornal não deveria focar mais no aprofundamento do noticiário e deixar de lado a preocupação com o furo, por exemplo? Trata-se de uma atitude que exige maleabilidade e autoconfiança não apenas dos empresários de comunicação, mas também dos jornalistas.”

#4. Com os ataques ao Charlie Hebdo, os limites do humor e da censura entraram em discussão: Em sua opinião, quais os limites do jornalismo e do humor?

“Muito se tem escrito sobre o tema depois dos ataques terroristas ao jornal francês. A questão é complexa e sua abordagem necessariamente tem que ser multifacetada, já que extrapola a liberdade de expressão e suscita também repercussões religiosas, políticas, econômicas e culturais.

Sou por princípio radicalmente contra qualquer forma de censura ou limitação à imprensa e à arte. Acho que o bom senso – que alguns até poderiam chamar de autocensura – é um ótimo parâmetro para o exercício do jornalismo. (Aliás, bom senso devia ser bússola para tudo na vida, né?) Como juízo é algo meio indefinido e cambiante, variando de pessoa para pessoa, e mesmo em cada situação enfrentada pelo mesmo indivíduo, os abusos, equívocos e mal-entendidos são inevitáveis. Para reparar isso, existem leis e normas de conduta que coibem e punem as infrações e os crimes de quem calunia, difama ou incita ao ódio.

Matar alguém por causa de uma opinião, um texto ou um desenho, porém, é algo absolutamente inaceitável e que deve ser execrado com veemência por todos. Je suis Charlie!”

#5. Como crítico de cinema, o que você pensa sobre o filme “A Entrevista” e sua repercussão? E o que você achou dos ganhadores do Globo de Ouro?

“Ainda não assisti ao filme “A Entrevista”, mas as críticas que li a respeito não são muito empolgantes – a comédia inclusive é uma das mais indicadas ao “Framboesa de Ouro”, prêmio que é uma espécie de anti-Oscar, entregue às piores produções e artistas da temporada.

Hollywood já tinha debochado antes da Coreia do Norte e de sua dinastia de ditadores em “Team America – Detonando o Mundo”, animação com bonecos dirigida pelos criadores do seriado “South Park” sobre um esquadrão de elite americano que tenta evitar uma conspiração terrorista liderada pelo presidente norte-coreano Kim Jong-il. O filme mistura ação, humor irreverente e até musical para fazer uma crítica iconoclasta tanto ao regime autocrático da Coreia do Norte quanto à política externa dos Estados Unidos.

Com relação ao Globo de Ouro, apesar de ainda não ter assistido a todos os títulos concorrentes, fiquei satisfeito com as premiações a “Boyhood” e “Birdman”, duas obras narrativamente inovadoras e ousadas – algo cada vez mais raro no cinema americano contemporâneo.

Também gostei do troféu de melhor filme estrangeiro para o russo “Leviatã”, poderoso drama que denuncia a degradação social e institucional da Rússia com um tom que remete à literatura de Dostoiévski.”

#6. O que você recomendaria para os “focas” que querem trabalhar com entretenimento? Quais dicas são essenciais para o dia a dia da profissão?

“Além da curiosidade, qualidade indispensável a qualquer jornalista, acredito que o profissional de comunicação que trabalha com arte e cultura tem que ser generoso. Explico: é natural que nossos gostos e influências sejam decisivos no nosso julgamento – afinal, só podemos avaliar o mundo a partir de nossa experiência pessoal. Porém, o jornalista que lida com a criação dos outros deve ter a humildade e a paciência para analisar e avaliar expressões artísticas e culturais que nem sempre fazem parte de suas preferências. Ao ter a generosidade de dar uma chance ao desconhecido, ao estranho e ao até então rejeitado, potencializamos a eficácia de nossa curiosidade, que se torna daí uma ferramenta fabulosa para a compreensão do mundo.

É preciso às vezes ter humildade para deixar em suspenso temporariamente nossas certezas a fim de entender de verdade o que aquele disco, filme, livro, quadro ou peça querem dizer.

Para o jornalista que consegue isso, o trabalho confunde-se com o prazer.”

Siga o Roger Lerina no Twitter.

Por Camila Conte, Gerente de Relacionamento com a Mídia e
Victor Melo, Analista de Comunicação Corporativa LatAm
PR Newswire

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